Análise: Fim do programa nuclear do Irã não foi alcançado
Estados Unidos e Irã assinaram um acordo provisório para encerrar o conflito entre os dois países. A medida foi confirmada por Donald Trump nesta segunda-feira (15). Para a analista de Internacional Fernanda Magnotta, o tratado contempla conquistas parciais para os americanos, mas deixa sem resposta o principal objetivo declarado desde o início das hostilidades.
“O objetivo mais importante, aquele que foi declarado desde o início dessas hostilidades, de fato ainda não foi tratado, que era neutralizar de maneira duradoura, no longo prazo, o programa nuclear iraniano“, afirmou Magnotta ao CNN 360º desta segunda-feira (15).
O acordo prevê que em 60 dias temas como enriquecimento de urânio, sanções e estoques nucleares deverão voltar a ser negociados. “Isso não foi resolvido”, destacou a analista.
Segundo Magnotta, o acordo cobre um “pacotão” de demandas imediatas: a suspensão das hostilidades, a reabertura do Estreito de Ormuz e, como consequência, um certo controle sobre os mercados e a inflação que afetou os Estados Unidos e o restante do mundo.
A analista ressaltou ainda que cada lado deve vender o acordo de forma diferente para suas audiências domésticas: “Donald Trump vai vender isso como vitória, vai utilizar esse episódio como uma demonstração de força, que houve uma contenção temporária do Irã”. Contudo, Magnotta avalia que, do ponto de vista estratégico, “no máximo os Estados Unidos ganharam tempo“.
Já do lado iraniano, a narrativa é bem diferente. “Eles não estão tratando como um acordo, mas como um memorando que dá início a uma negociação mais ampla. Um está tratando como o fim, o outro está tratando como o começo”, afirmou a analista.
Cinco desafios
Magnotta elencou cinco pontos de fragilidade que podem comprometer a transformação do acordo provisório em algo sustentável no longo prazo. O primeiro é justamente a ambiguidade do texto, que permite interpretações opostas. O segundo é a questão nuclear em si, que, por não ter sido endereçada, pode resultar em apenas uma trégua seguida de nova escalada.
O terceiro desafio envolve países e grupos que não estão comprometidos com o acordo, como Israel e diversas milícias regionais. O texto do acordo menciona o Líbano e o Hezbollah, mas não resolve questões relacionadas a mísseis, drones ou à relação mais ampla com Israel, que já manifestou ressalvas em relação a alguns pontos do acordo.
O quarto ponto diz respeito à política doméstica americana. Grupos considerados mais linha-dura já começaram a criticar o tratado, comparando-o ao acordo nuclear firmado em 2015 por Barack Obama e posteriormente abandonado pelos próprios Estados Unidos em 2018.
O quinto e último desafio apontado pela analista é a construção de confiança entre as partes. “Acreditar que depois de uma escalada como a que a gente assistiu, 60 dias vai ser o suficiente para reconstruir confiança, depois de mais de quatro meses de guerra, eu diria que é apostar em um olhar um tanto quanto otimista”, avaliou Magnotta.
Para ela, ambos os lados precisaram desviar dos temas mais difíceis para chegar a qualquer acordo. “O elefante continua na sala”, concluiu a analista.
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