Chefe da ONU defende regulamentação das IAs para proteger as crianças
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou nesta segunda-feira (6) que a inteligência artificial está se desenvolvendo em uma velocidade maior do que a de raciocínio de qualquer pessoa, defendendo a criação de regras globais para reduzir riscos potenciais — especialmente para as crianças.
“Uma tecnologia capaz de remodelar economias, transformar o mundo do trabalho, influenciar eleições e alterar o equilíbrio da segurança está sendo implementada mais rápido do que qualquer um, inclusive aqueles que a estão desenvolvendo, consegue acompanhar”, afirmou Guterres no primeiro diálogo global de nível governamental sobre IA, realizado em Genebra pelas Nações Unidas.
“A inovação precisa de mecanismos de salvaguarda… Se a IA deve ser poderosa, ela precisa ser governada”, adicionou.
O Diálogo Global da ONU sobre Governança da IA, um evento de dois dias, não visa elaborar um tratado, mas discutir como estabelecer regras para mitigar os danos potenciais da IA e aproveitar as oportunidades que ela oferece.
Os delegados analisarão um relatório elaborado por um painel científico independente de 40 especialistas apoiado pela ONU, que apresentará as conclusões da primeira avaliação científica global independente sobre inteligência artificial.
Um segundo documento está previsto para o ano que vem, junto de uma segunda edição do evento, desta vez em Nova York.
Necessidade de regulamentar a inteligência artificial
O secretário-geral enfatizou durante o evento que a harmonização de regras sobre IA deve priorizar a segurança das crianças, citando exemplos de menores sendo induzidos à automutilação e enganados por IAs se passando por amigos.
“Não permitimos que um medicamento chegue a uma criança sem garantir sua segurança. Testamos todos os brinquedos. No entanto, a IA chegou até nossas crianças, já afetando seu aprendizado, suas amizades e suas questões mais íntimas — antes mesmo que alguém se perguntasse quais seriam os impactos disso sobre elas”, destacou Guterres.
Ele defendeu a criação de um acordo para segurança infantil no uso de IA, pelo qual as empresas desenvolvedoras de sistemas teriam de comprovar a segurança de suas tecnologias antes de disponibilizá-las para crianças.
Além disso, segundo o compromisso, os sistemas não deveriam ter permissão para gerar imagens sexuais de crianças e, caso uma criança demonstrasse sinais de sofrimento, o sistema deveria interromper a interação e conectá-la a um atendente humano para obter ajuda.
Embora a IA ofereça oportunidades significativas, como na área da saúde, Guterres observou que as instituições mundiais não estão preparadas para máquinas capazes de tomar decisões; ele ressaltou que a velocidade de desenvolvimento da IA faz com que máquinas tomem cada vez mais decisões com pouca supervisão humana ou governamental.
“A internet levou 15 anos para alcançar um bilhão de pessoas. A IA atingiu essa marca em dois anos”, disse Guterres aos delegados.
Ele também alertou sobre a concentração dos sistemas de IA mais avançados em um pequeno número de empresas e países, o que significa que as nações em desenvolvimento têm pouca influência no avanço da Inteligência Artificial e correm o risco de ficar para trás.
Um relatório independente elaborado por especialistas científicos constatou que o desenvolvimento da IA é ainda mais concentrado: os EUA detêm 75% da capacidade computacional entre os 500 supercomputadores de IA mais potentes do mundo, enquanto a China detém apenas 15%.
O relatório acrescentou que, embora mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo já utilizem IA conversacional semanalmente, a adoção dessa tecnologia nos países em desenvolvimento ainda é lenta.
Superando a disparidade em IA
Durante o encontro, Guterres afirmou que, se bem utilizada, a IA poderia comprimir décadas de desenvolvimento em anos, potencialmente se tornando “o grande equalizador do século XXI”.
O chefe do Conselho Presidencial da Líbia, Mohamed al-Menfi, defendeu que a disparidade no uso de IA seja superada na África, que representa 10% da população mundial, mas possui menos de 2% dos centros de dados globais.
“A IA não pode ser um recurso legítimo se os países africanos não puderem utilizá-la”, disse al-Menfi, apelando para uma participação maior dos Estados africanos na elaboração das normas da ferramenta.
O presidente da Geórgia, Mikheil Kavelashvili, disse que os líderes mundiais também têm a responsabilidade compartilhada de criar leis internacionais robustas para impedir que o poder da IA se torne um “instrumento de controle totalitário e uma nova tirania digital”.
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