“Filhos da diáspora”: como mudanças nas regras da Fifa impactam a Copa

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“Filhos da diáspora”: como mudanças nas regras da Fifa impactam a Copa

As boas atuações de Marrocos diante do Brasil e o surpreendente empate de Cabo Verde com a Espanha na rodada de abertura da Copa do Mundo têm uma origem em comum: o aproveitamento de jogadores da diáspora africana desenvolvidos em clubes europeus.


No caso marroquino, os 11 titulares escalados contra o Brasil nasceram fora do país e foram formados no futebol europeu. A única exceção foi o goleiro Yassine Bounou, nascido no Canadá, mas criado esportivamente em Marrocos.




Nas últimas duas décadas, diversas seleções africanas recorreram às comunidades de emigrantes na Europa para reforçar seus elencos e elevar o nível competitivo. Poucas aproveitaram esse recurso de forma tão expressiva quanto Cabo Verde.


Com uma população de cerca de 600 mil habitantes, o país passou a depender de atletas nascidos ou criados na Europa para alcançar uma classificação improvável para a Copa do Mundo. Há pouco mais de 20 anos, a seleção sequer disputava as eliminatórias.


Mudanças nas regras da Fifa transformaram o cenário


A migração global, as alterações nos regulamentos da Fifa e o trabalho intenso de observação de talentos da diáspora mudaram significativamente o panorama do futebol internacional.


Todos os jogadores que disputam a Copa do Mundo precisam possuir cidadania do país que representam, e a Fifa realiza verificação física dos passaportes durante o processo de elegibilidade.


Para evitar que federações distribuam passaportes apenas para fortalecer suas equipes, a entidade exige que o atleta tenha vivido por cinco anos no país ou possua pai, mãe, avô ou avó nascidos naquele território.


Nos primeiros anos da Copa do Mundo, praticamente não existiam regras sobre elegibilidade. Um dos casos mais conhecidos foi o de Luis Monti, que atuou pela Argentina em 1930 e, quatro anos depois, defendeu a Itália após se transferir para a Juventus.




Como a Fifa passou a permitir mudanças de seleção


Posteriormente, a Fifa adotou uma política rígida que impedia qualquer mudança de seleção após a participação em uma partida oficial internacional, mesmo nas categorias de base.


As federações do Norte da África lideraram o movimento por mudanças. Mohamed Raouraoua, ex-presidente da Federação Argelina de Futebol, foi um dos principais responsáveis pela proposta que alterou o regulamento.


“Não achávamos justo que jogadores de origem africana fossem convocados para seleções de base europeias e depois nunca recebessem uma oportunidade na equipe principal. Queríamos dar liberdade para que esses atletas pudessem escolher”, afirmou.


“Ter esses jogadores é um enorme benefício para muitas seleções africanas. Isso melhora todo o produto do futebol”, acrescentou Raouraoua.


Primeiros casos abriram caminho para nova geração


A Fifa alterou seus estatutos em 2003, permitindo a mudança de seleção para atletas com dupla nacionalidade que ainda não tivessem atuado pela equipe principal em partidas oficiais.


Inicialmente, a entidade estabeleceu limite de idade de 21 anos para a troca. Mais tarde, a regra foi flexibilizada e passou a permitir solicitações em qualquer faixa etária.


O zagueiro Antar Yahia tornou-se o primeiro jogador beneficiado pela mudança. Ex-integrante da seleção sub-20 da França, ele estreou pela Argélia sub-23 em janeiro de 2004 e fez sua primeira partida pela equipe principal apenas duas semanas depois.


Toda mudança de associação nacional precisa ser aprovada pela Fifa após a apresentação formal da documentação exigida.


Copa do Mundo tem quase 25% de atletas nascidos em outro país


Desde então, vários jogadores seguiram o mesmo caminho. Pierre-Emerick Aubameyang e Frédéric Kanouté defenderam seleções de base da França antes de mudarem de nacionalidade esportiva e conquistarem o prêmio de Melhor Jogador Africano do Ano.


O capitão de Senegal, Kalidou Koulibaly, acumulou mais de 100 partidas pela seleção após trocar a França sub-20 pelo país africano. Fora da África, Declan Rice deixou as seleções de base da Irlanda para se tornar peça fundamental da Inglaterra.


A atual Copa do Mundo reúne 289 jogadores representando países onde não nasceram. O número corresponde a quase 25% dos participantes do torneio disputado em Canadá, México e Estados Unidos.


Muitos desses atletas só chegaram ao Mundial após mudarem oficialmente de nacionalidade esportiva. Um exemplo recente é Ibrahim Mbaye, que marcou para Senegal contra a França na terça-feira, menos de um ano depois de atuar pelas categorias de base francesas.


















Veja o ranking dos elencos mais valiosos da Copa do Mundo



 




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