Tolerância de Israel com o Irã é entrave para acordo com EUA, diz professor
As negociações para um acordo entre os Estados Unidos e o Irã enfrentam obstáculos significativos, e um dos principais deles é o chamado limiar de tolerância de Israel em relação às capacidades militares e nucleares iranianas.
A avaliação é de Augusto Teixeira, professor de Defesa e Segurança Internacional, em entrevista à CNN Brasil neste domingo (14).
Para Augusto Teixeira, qualquer negociação entre Washington e Teerã não envolve apenas os dois países diretamente. “Uma potencial negociação entre Estados Unidos e Irã não passa apenas por ambos os países, mas tem Israel como um importante interlocutor interessado na segurança regional”, afirmou.
Temas como a manutenção de grupos apoiados pelo Irã, como o Hezbollah, e a continuidade do programa nuclear iraniano são pontos que, segundo ele, “dificultam muito na relação entre Benjamin Netanyahu e Donald Trump”.
Os pontos centrais da negociação
Augusto Teixeira elencou três aspectos fundamentais que estão na mesa de discussões. O primeiro é o programa nuclear iraniano, que anteriormente era regulado pelo acordo conhecido como JCPOA, negociado durante o governo Obama e do qual Trump se retirou em seu primeiro mandato.
“Existe na prática um vácuo constitucional na regulação dessa questão do programa nuclear iraniano”, explicou o especialista. O segundo ponto é a demanda iraniana pelo fim do bloqueio ao Estreito de Ormuz. O terceiro é o alívio financeiro para o Irã, com a eliminação de sanções e o retorno de fundos iranianos congelados globalmente.
Segundo Teixeira, esses pontos vêm sendo discutidos há meses e contam com o apoio de países como Catar, Turquia e, em especial, o Paquistão, descrito por ele como “um ator muito importante nesse processo de negociação”.
No entanto, o Irã, segundo o professor, “tem se comportado como um ator vitorioso no conflito, se restringindo a não discutir essas questões que, para ele, são fundamentais”.
O conflito no Líbano e sua relação com as negociações
Questionado sobre como o conflito entre Israel e o Hezbollah no Líbano impacta as negociações com o Irã, Augusto Teixeira foi direto: “O conflito impacta diretamente, porque apesar de ser percebido por alguns como dois conflitos em separado, não são.”
O especialista destacou que o Hezbollah é parte central do chamado “eixo de resistência iraniano” na região, dependendo de apoio, insumos, treinamento e equipamento do Irã. “A manutenção do Hezbollah é sempre vista por Israel como um instrumento importante de pressão contra Tel Aviv”, acrescentou.
Nesse contexto, Augusto Teixeira ressaltou a divergência entre as posições de Israel e dos Estados Unidos.
Enquanto Washington, sob a liderança de Trump, “aparenta estar disposto a avançar com um acordo, mesmo que este não venha a degradar ou eliminar o programa nuclear do Irã”, Israel enxerga essa questão como existencial. “O limiar de tolerância de Israel é muito menor do que o dos Estados Unidos”, disse o especialista.
Dinâmica interna do Irã e capacidade de resistência
Ao analisar os limites do Irã para manter suas posições nas negociações, Augusto Teixeira apontou que o resultado depende de quais grupos estão efetivamente no comando do país.
Setores mais pragmáticos estariam inclinados a encerrar o conflito, mas a Guarda Revolucionária iraniana — que, segundo ele, vem ganhando espaço político interno — é “muito mais radicalizada, menos pragmática e entende que está vencendo o conflito no momento”.
O especialista também mencionou a ausência pública do Aiatolá como fator de instabilidade política interna.
Na perspectiva iraniana, segundo Teixeira, o Irã acredita que consegue resistir por mais tempo do que os Estados Unidos, que estão sujeitos a ciclos eleitorais, como as próximas eleições de meio de mandato.
Ainda assim, o especialista reconheceu que o Irã “já se encontra numa situação muito degradada, seja por sanções, isolamento no comércio e produção internacional, e agora, obviamente, com a guerra”. O bloqueio naval imposto pelos EUA também tem reduzido as receitas iranianas provenientes do comércio petroleiro na região.
Risco de nova escalada
Sobre a possibilidade de uma nova escalada caso as negociações não avancem, Augusto Teixeira alertou que o Irã tem aproveitado o período de cessar-fogo para se reequipar militarmente: recompondo estoques de munição, reparando lançadores de mísseis e reorganizando seu dispositivo militar.
“Caso ocorra uma nova erupção de violência entre Estados Unidos e Israel e o Irã, o Irã não estará na mesma situação de degradação quando da entrada em vigor desse cessar-fogo”, afirmou.
O especialista destacou ainda que o Irã mantém capacidade para “degradar ou destruir importantes infraestruturas energéticas e de apoio à vida, como dessalinização de água, em países do Golfo”, além de bases americanas na região.
Para Teixeira, a situação é “muito complicada”, e há setores dentro da Guarda Revolucionária iraniana que poderiam até se beneficiar politicamente de uma retomada do conflito.
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